quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Busacca: "Estamos a investir"


Massimo Busacca exerceu a profissão de árbitro durante 22 anos e apitou mais de cem partidas internacionais de alto nível, entre as quais se destaca a final da Liga dos Campeões da UEFA em 2009. Aos 42 anos, ele encerrou a carreira nos gramados e assumiu a chefia do Departamento de Arbitragem da FIFA. Conversamos com Busacca sobre o ano que passou e tudo o que se refere à arbitragem.


Neste ano você trocou de lado: de árbitro internacional a chefe do Departamento de Arbitragem da FIFA. Quais os principais motivos para a mudança?
A minha atuação em campo durante muitos anos me dá boas chances de repetir o mesmo também fora de campo. É uma excelente oportunidade de transmitir tudo o que aprendi aos futuros árbitros de elite, que vão apitar os jogos das nossas principais competições. Não chega a ser uma mudança: continuo vivendo e respirando futebol todos os dias, só que agora de uma perspectiva mais externa do que interna.


Sente falta dos relvados?
Ah, sim, claro que sinto. É como quando um jogador pendura as chuteiras. Sinto muita falta, mas por outro lado é bom, pois permaneço envolvido e animado. Assim, consigo explicar melhor aos árbitros o que eles têm de fazer.


"Minha prioridade é criar um grupo de árbitros de elite, trabalhando de modo profissional. Queremos aprimorá-los, a exemplo dos jogadores que se aprimoram dia após dia, treinamento após treinamento."


Como foram os primeiros meses na condição de dirigente da FIFA? Em que consistem as suas funções?
A FIFA representa aos árbitros o que as seleções representam aos jogadores. E eu quero ser o treinador desta seleção nacional. Temos de atuar como uma equipe de futebol; temos de viver e respirar futebol todos os dias. A minha prioridade é criar um grupo de árbitros de elite, trabalhando de modo profissional. Queremos aprimorá-los, a exemplo dos jogadores que se aprimoram dia após dia, treinamento após treinamento. Assim como os jogadores atuam nos seus clubes, os árbitros apitam as partidas dos respectivos campeonatos nacionais. Então os jogadores são convocados para a seleção, e algo semelhante acontece com os árbitros chamados para apitarem torneios da FIFA. Para isso, obviamente é necessária uma estrutura de âmbito mundial, motivo pelo qual criamos um grupo de instrutores. Fornecemos uma mensagem clara de como eles devem acompanhar os árbitros e assegurar a qualidade. Cabe ao grupo indicar os melhores árbitros para as nossas competições.


Os melhores árbitros estarão na Copa do Mundo da FIFA 2014, no Brasil. Como ocorre o processo de seleção e treinamento? Ele já começou?
O pontapé inicial foi a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, no Japão. Escolhemos alguns árbitros para podermos observar as qualidades deles e analisar se estão prontos para serem candidatos para 2014. O ano que vem será fundamental. Vamos criar uma lista de árbitros de elite, mas ela vai permanecer aberta até o fim. Ou seja, o árbitro entra na lista, mas sai dela caso não se adeque ou não trabalhe de modo apropriado. Essa mensagem será transmitida a todos os árbitros de todas as confederações.


O presidente da FIFA comentou que os árbitros da Copa do Mundo da FIFA 2014 serão todos profissionais. Você considera a profissionalização essencial à arbitragem? 
Como os jogadores, os árbitros precisam treinar diariamente. Não se pode mais aceitar que as federações não forneçam estrutura e oportunidades iguais para a preparação dos árbitros. Eles precisam de treinador e de preparador físico durante a semana. Precisamos ter certeza de que estão trabalhando corretamente, que vivem e respiram futebol todos os dias. Caso contrário, o desempenho acaba dependendo da sorte. É necessário proporcionar aos árbitros tudo de que eles precisam para a preparação. Em outras palavras: profissionalismo. Não tem a ver só com salário. Quantos clubes investem muito dinheiro e não conquistam títulos? As federações são responsáveis pelos seus árbitros e devem fazer muito em prol deles. Quando eles se apresentam para atuarem em nossos torneios, não conseguimos mudá-los em cursos de uma semana.


Já ouvimos falar muito do Programa de Auxílio à Arbitragem. Como esse programa ajudará os árbitros a serem mais eficientes?
Estamos investindo muito dinheiro na formação dos árbitros. Quase todos os dias são ministrados cursos mundo afora. Tudo o que fazemos na formação, nós vamos fazer durante as competições. É fundamental. É preciso que as nossas estruturas em âmbito mundial trabalhem de acordo com as nossas diretrizes.


Na Alemanha, o árbitro Babak Rafati tentou se suicidar e alegou uma pressão crescente sobre a categoria. Como ajudar os árbitros a suportarem essa pressão? 
Existe pressão em toda e qualquer atividade. Hoje em dia, se você atinge altos patamares em seja qual for o trabalho, você enfrenta pressão. Claro que na arbitragem a pressão é maior, afinal há muito dinheiro envolvido, e uma decisão equivocada muda tudo. Mas temos de conviver com isso. Em retrospectiva, analisando a minha própria carreira, eu me sentia mal quando tomava decisões erradas. Mas sempre tentava esquecer logo e ficar pronto para o jogo seguinte. Eu me solidarizo com Rafati. Imagino o que aconteceu. Talvez a temporada dele não tenha sido boa, e ele tenha depositado na arbitragem todas as prioridades. Às vezes, isso é um engano. Se as coisas não dão certo, você questiona a sua postura.


Junto com Peter Mikelsen, você compõe a Força-Tarefa 2014 e apresenta os pontos de vista dos árbitros. Entre os tópicos discutidos está a "tripla punição": pênalti, cartão vermelho e suspensão. Quais as últimas novidades sobre esse assunto?
O grupo concorda que a punição tripla é exagerada. Queremos entrar em um acordo lógico. Apenas quando houver mão na bola de modo escancarado em cima da linha do gol, ou uma falta em situação clara de gol, então será pênalti com cartão vermelho. Caso contrário, será pênalti com cartão amarelo. A proposta ainda vai passar pela International Board.


Outro tópico controverso é o uso da tecnologia de vídeo. Qual é a sua posição sobre o assunto?
Craques cometem erros. Não ganham replay nem nova oportunidade de fazer o gol. E no meu ponto de vista o mesmo deve acontecer com os árbitros. Não é o caso de se parar tudo e se assistir ao que aconteceu. Por isso sou contra replays de vídeo. Mas, quanto à tecnologia da linha de gol, estamos quase lá, e estou convencido de que muito em breve algo vai surgir para reduzir ou até eliminar o problema de detectar se a bola ultrapassou ou não a linha. A decisão final continua sendo humana. É importante permitir que os árbitros cometam enganos, como os jogadores também cometem. Temos de mudar a mentalidade. Até mesmo com árbitros profissionais não vamos eliminar completamente os erros.


"O principal é trabalhar de modo tático e entender de futebol. Não desejamos criar robôs. Circunstâncias e decisões têm a ver com a intuição."


Outra abordagem vem sendo testada pela UEFA: cinco árbitros nas competições europeias. Você mesmo participou desse experimento... 
Isso vem sendo feito há coisa de dois ou três anos, mas não é o momento de chegar a conclusões. O essencial é testar em competições importantes como a Euro 2012. A abordagem é boa, mas ainda falta algo. Precisamos de árbitros de qualidade. Não adianta achar que dois árbitros auxiliares adicionais posicionados na linha de fundo serão capazes de ajudar o árbitro e os bandeirinhas, se não houver qualidade. Eles precisam ter nível igual ao do árbitro. Em questão de segundos, você tem de tomar várias decisões importantes em uma partida de relevo. No próximo ano, vamos conferir se os árbitros extras estão preparados para ajudarem o árbitro em jogos de peso.


Você apitou partidas de alto nível, inclusive a final da Liga dos Campeões da UEFA e uma semifinal da Copa das Confederações da FIFA, na África do Sul, em 2009. Como levar essa experiência ao desenvolvimento dos árbitros?
Tenho certeza de que vou dividir a minha experiência. Tive oportunidade na Copa do Mundo de Clubes no Japão, onde tentei ser o treinador. Quero dividir com eles a minha experiência de 22 anos de arbitragem e 12 competições internacionais. O principal é trabalhar de modo tático e entender de futebol. Não desejamos criar robôs. Circunstâncias e decisões têm a ver com a intuição. Temos de conhecer as regras do esporte, mas a interpretação é importante, pois reflete a personalidade. Queremos que o árbitro mantenha a própria personalidade.


Se pudesse fazer um pedido de Natal relativo à arbitragem, qual seria?
É essencial que haja mais respeito, não só na arbitragem, mas também na sociedade como um todo. Qualquer um está sujeito a cometer equívocos. Respeito é importante. Respeito a si mesmo e aos outros.


Fonte: FIFA

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