segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Ainda o Benfica vs Boavista, parte 4, por Duarte Gomes

Seguramente lembram-se deste lance.

O tal do fora de jogo posicional de Shembri, que levantou muitas dúvidas e gerou grande discussão sobre a sua legalidade.

Foi fora de jogo? Não foi? Tocou na bola? Não tocou? Interferiu no adversário? Não interferiu? Teve impacto na defesa? Não teve?

Só o número de perguntas possíveis atestou, desde logo, a enorme dificuldade de análise desta situação.

Neste mesmo espaço e em tempo devido, procurei esclarecer os caros leitores acerca do que diziam "os livros" sobre esta matéria. E hoje recordo, eles rezam mais ou menos isto:
  • Sempre que um jogador tente claramente tocar a bola (mas não o consiga) e essa ação tenha impacto nos defensores, deve ser punido por fora de jogo.
Então, disse, o segredo seria decidirmos se a ação de Schembri tinha ou não tido impacto no adversário.

Exercício Básico - Revejam o lance.
  1. Se entenderem que a ação do avançado do Boavista teve impacto nos defensores, defenderão o fora de jogo.
  2. Se acharem que não, dirão que o lance foi legal.
Perguntarão: porque razão estamos a falar desta situação novamente?

Pela oportunidade do tema. É que o Conselho de Arbitragem pronunciou-se recentemente sobre ele.

No seu entender, o lance devia ter sido punido por fora de jogo, por considerar que a ação de Schembri teve impacto na ação do GR Ederson.

Tal como aqui referido, essa é uma opinião perfeitamente legítima porque fundamentada numa das duas interpretações que a lei sugere.

É agora a posição oficial do órgão que superintende a arbitragem em Portugal. Significa que, futuramente e em lances análogos, os árbitros decidir-se-ão sempre pela punição.

Esta leitura - repito, perfeitamente plausível - foi confirmada pela UEFA, a quem o CA afirmou ter recorrido, seguramente pelo facto de ter tido dúvidas sobre qual a decisão a tomar.

Para nós - comentadores, adeptos e apaixonados por futebol - não é importante concordar ou discordar com esta interpretação.

É importante respeitá-la e aceitá-la como correta.

Se, tal como eu (e vários peritos nacionais e internacionais em leis de jogo) entenderem, ainda assim, que Schembri, colocado naquele momento a cerca de oito metros do GR e em movimento claramente contrário ao da baliza, não teve impacto na sua ação, não se inibam de manter a vossa perspetiva.

Ela é tão válida como qualquer outra.

Se reparar bem, os tribunais portugueses estão cheios de processos pendentes porque defesa e acusação fazem análises distintas da lei. Da mesma lei.

Não é crime. É democracia. Não é disparate. É liberdade para raciocinar.

Esta discussão é saudável e reflete apenas o empenho de muita gente - CA incluído - em elucidar e esclarecer as pessoas sobre a grande dificuldade que é escrutinar as leis que regem o desporto rei.

Mais.

Ela sublinha uma realidade a que todos devem formatar-se no futebol: é que nem tudo é objetivo, nem tudo pode ser carimbado e nem tudo pode exigir uma só resposta. Uma só verdade.

Aliás, se fosse tudo preto no branco, o futebol seria uma valente seca. Não seria?

Fonte: Expresso

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