sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Não só “fora o árbitro”, mas “fora o dirigente”

Artigo de Jorge Vieira, ex-dirigente do FC Porto e do Conselho de Arbitragem da AF do Porto

O futebol está em ‘off-side’ e não é só por culpa dos homens do apito, mas sim da maioria dos dirigentes do melhor jogo do mundo.

A nossa experiência de muitos anos, sentado no "banco dos réus" dos estádios ou nos gabinetes de direção da arbitragem, vai sempre bater no mesmo e que é o esbarrar da maior culpa dos chamados maus juízes em campo e que são, sem


dúvida, os dirigentes dos clubes que entendem que a vitória das suas cores terá de aparecer a qualquer jeito.

É que os árbitros, caros senhores que gostam de futebol, não tem clube, só tem um emblema e que é o prestigiar a arbitragem. Mas para isso precisam de paz, não de guerras, de pressões e até de ameaças de morte!

É verdade que, tal como os jogadores e os treinadores, os ‘homens de negro’ não têm a suprema categoria nas suas decisões. Tal como os jogadores, muitos deles pagos a peso de ouro, e que falham golos de baliza aberta, e os treinadores apostam em tácticas marca zero, também os árbitros cometem os seus erros. Mas aos jogadores tudo se perdoa, mesmo com o prejuízo de milhões, tal como aos treinadores, cofres cheios de sabedoria.

Aos árbitros, não, nada se perdoa. Exige-se que o homem do apito seja um homem sem pecado.

É verdade, que não queremos iludir ninguém, que a escola de arbitragem no cumprimento das regras e nos reflexos psicológicos do entendimento humano do adepto, jogadores, treinadores e dirigentes já tem de começar nos chamados campeonatos regionais, havendo mestres aplicados e sabedores e fechando as portas a toda a casta de tensão para a satisfação de conveniências.

Sabemos do que falamos porque já vivemos de perto com esta situação e sabemos bem as razões que nos obrigaram a bater com a porta. Só tínhamos o emblema de bem servir e respeitar o compromisso que firmamos.

Os maus árbitros, como conhecemos ontem e hoje, não são os que usam um apito, mas o que usam gravata e se sentam nos gabinetes.

Os dirigentes dos clubes, mesmo hoje com as grandes organizações futebolísticas, não escolhem nem votam os melhores, mas sim nos nomes que podem ser facilmente maleáveis para os interesses da confirmação das promessas que se fazem aos adeptos na garantia de vitórias, se possível, todos os fins-de-semana, custe o que custar.

Muita gente que nos estará a ler sabe que sabemos - e bem - do que estamos a falar pois, repetimos, andamos metidos no meio do barulho e só. porque pretendemos dizer "basta", habilmente convidaram-nos a passar a ter somente o estatuto de adepto de bancada
Nascemos para o futebol nas escolas de Artur Baeta nos anos 50/52, e mais tarde, de 1972/79 fomos director do futebol profissional do FC Porto e, mais tarde, como dirigente associativo, presidente do Conselho Técnico e do Conselho de Arbitragem, na AF Porto,

Sem complexos, pois, deixamos escrito que somos adeptos do FC Porto, mas primeiro que o "dragão" somos adeptos ferrenhos do futebol.

Por isso decidimos "entrar em campo" em defesa dos árbitros. Nós que conhecemos o terreno, não esquecemos que vivemos num tempo em que não havia as adequadas estruturas para a formação dos árbitros, tão pouco o dinheiro que há hoje num futebol industrializado.

Mas, já nesse tempo recuado, quando exigíamos maior apoio, também nunca nos foi dado por vontade dos dirigentes já que o que interessava (e interessa ainda) era uma estrutura fraca, com frinchas nas leis e nos hábitos para que os interesses dos clubes pudessem ser passes para golos…

É uma verdade muita antiga que os dirigentes quando ocupam os lugares de chefia raramente ou quase nunca conseguem despir a camisola do seu clube. E essa negação tem os resultados que todos vemos e com a triste possibilidade de proliferarem.

A acrescentar a esta situação há a televisão a vasculhar os pormenores do jogo que só se dá por eles ao passar as imagens meia dúzia de vezes, mas que se exige aos árbitros que, num olhar de raio, os veja com a velocidade da luz.

Acresce que na TV há milhentos programas de futebol e com comentadores que fazem do seu comentário um tanque para lavar roupa suja, poucos sendo aqueles que seleccionam para os comentários quem um dia pisou os campos relvados ou pelados, na arte de jogar ou treinar. Apresentam-se fotografias - e todos sabemos como se podem adulterar as imagens -, disparam frases e imagens que já são história, inventam-se comparações e interesses que fazem desesperar pela desconexão mental de uns tantos. Acirram-se os adeptos e, depois disto tudo, são os árbitros os rapazes maus.

Sabe-se de ciência certa que os árbitros são humanos, nunca é demais repetir e, como tal, cometem erros. Sabe-se que todos os árbitros querem ser imparciais, mas a lei da vida diz-nos que não conseguirão ser totalmente isentos. Daí exigir-se uma análise, aí sim, isenta, por parte da classe dirigente.

Não diremos nada de novo se não afirmarmos que a seleção de cidadãos para árbitros de futebol terá de ter cada vez uma malha mais fina de valor humano e nas mais variadas vertentes desde a força atlética até à força mental. O apito terá de saber ler e escrever.

Por outro lado, os adeptos devem começar a pensar seriamente que o árbitro não é único culpado, o ‘balde do lixo’ das frustrações das cores clubistas. Terá de existir também uma seleção apurada de competências humanas para os dirigentes, que não confundam as suas fraquezas e dos seus atletas e treinadores debitando-as no comportamento dos árbitros.

É urgente trazer dignidade para o futebol. Escolher os homens certos para o dirigir, gente que ao assinar a posse dos seus mandatos, esqueça a camisola do clube que os catapultou para a responsabilidade duma gestão que sirva, repetimos, o melhor jogo do mundo e que envolve dinheiro a roçar o valor de boas fortunas.

Não se pode agradar a gregos e troianos. A seriedade terá de valer o título de campeão. A começar por dirigentes que transmitam bons exemplos de administração nas Federações, Ligas, Associações e, sobretudo nos clubes.

Que a comunicação social não faça do futebol um mundo de prostituição, dando guarida a quem não gosta de futebol, mas sim de um desporto de maus costumes.

Se assim acontecer, separar-se-á o trigo do joio na arbitragem, surgirão valores respeitáveis na condução dos jogos, na classe dirigente e nos adeptos.
Se assim for, o Futebol passará ser uma coisa bonita e de que todos gostaremos ainda mais, as cores do nosso clube ficarão mais brilhantes com tinta da Dignidade e o jogo regressará a uma ‘festa de família’.

Fonte: Record

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