quarta-feira, 15 de março de 2017

Árbitros na antiguidade e na modernidade (artigo de João Marreiros)

Muito se tem falado e escrito sobre a arbitragem, que continua na ordem do dia com inquiridos principalmente treinadores e dirigentes, que se encontram sob a alçada disciplinar.

O dicionário da língua portuguesa da Porto Editora (p.149) define como árbitro o indivíduo que, em jogos desportivos, fiscaliza a observância das regras. Também, na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (p.110), os árbitros são definidos como senhores absolutos dentro do campo e as suas decisões sobre questões de facto não podem ser contestadas.

Nos Jogos da Antiguidade os atletas comprometiam-se a observar rigorosamente o Regulamento dos Jogos e acatar a autoridade dos Juízes, que vestiam de púrpura escarlate, com assento no meio do Estádio (hellanodikes), coroado de louros e segurando um bastão com castão de pinha, com o qual, não muito frequentemente, puniam um atleta que cometesse qualquer falta.

No primeiro dia, os atletas e os árbitros realizavam o seu juramento num edifício de forma retangular (Buleutério), local onde se reunia a assembleia deliberativa na Grécia antiga, perante a estátua de Zeus Korkios. Juravam agir de forma honesta e honrada visto que o infringimento das leis era considerado uma desonra não só do indivíduo, mas também da cidade que este representava.

O Regulamento dos Jogos da Antiguidade mencionava que toda a corrupção do árbitro ou competidor seria castigada com o látego (chicote de cordas ou de correias), sendo ainda proibido aos competidores de se manifestarem contra o público ou contra os juízes.

Bernard Marillier no seu livro, Jogos Olímpicos (2000) menciona que o Juramento nos Jogos da Antiguidade (p.104) era feito junto ao altar de Zeus e representava o momento mais solene do dia. Vestidos de branco e avançando um após o outro, os atletas estendiam o braço direito ou colocavam a mão direita sobre o altar, onde jazia um javali sacrificado, dizendo ser “leais de competirem enquanto homens livres para honrar o seu nome, o da sua família e o da sua cidade, e de temerem a cólera dos deuses caso viessem a cometer perjúrio”. Por outro lado os hellanodikes juravam que iriam julgar os atletas com imparcialidade e que puniriam os infratores.

Nos Jogos Olímpicos da Era Moderna, Pierre de Coubertin é o autor do Juramento Olímpico pronunciado no dia da Cerimónia de Abertura, por um atleta do país organizador, em nome de todos os concorrentes.
Nos Jogos Olímpicos de 1920, que se realizaram em Antuérpia, o esgrimista belga Victor Boin (1886-1974), pronunciou o primeiro Juramento dos Jogos Olímpicos Modernos, sendo deste modo inaugurado um ritual, que até aos dias de hoje não foi interrompido. Tinha o seguinte teor: “Juramos participar nos Jogos Olímpicos enquanto competidores leais, cumprir escrupulosamente os regulamentos e dar prova de um espírito cavalheiresco, para honrar o nosso país e para a glória do desporto.”

Durante o Juramento a mão esquerda segura um dos cantos da Bandeira Olímpica, com os seus cinco anéis, simbolizando a união dos continentes e o reencontro de atletas vindos de todas as partes do mundo. A mão direita, com o prolongamento perfeito do braço, é solenemente esticada.

Depois da segunda guerra o texto do Juramento viu o seu conteúdo ser modificado tendo sido significativo o desaparecimento da referência “ao nosso país” alterado para “equipa” e a palavra “jurar” foi trocada por “prometer”.

Nos dias de hoje, quando é mencionado que vai ser feito o Juramento Olímpico, o seu teor é o seguinte: “Em nome de todos os concorrentes, prometo que participaremos nos Jogos Olímpicos enquanto concorrentes leais, respeitadores dos regulamentos que os regem e desejosos de participar com um espírito cavalheiresco para a glória do desporto e honra das nossas equipas.”

Por outro lado, nos nossos dias existe também um Juramento dos Juízes, cujo primeiro Juramento teve lugar nos Jogos Olímpicos de Munique em 1972: “Em nome de todos os juízes e árbitros prometo que oficiaremos nestes Jogos Olímpicos sem prejuízo respeitando e cumprindo as regras que nos governam com o espírito verdadeiro de desportividade.”

No futebol a figura do árbitro apareceu em 1868 mas, apitava pouco, ficando fora do campo sem autonomia para marcar qualquer infração pois eram os capitães das equipas que decidiam, tendo alcançado a autoridade absoluta a partir do ano 1894.

Jorge Araújo, num artigo publicado no jornal “A Bola” de 19 de Novembro de 1994 (p.16), já lá vão quase 23 anos, mencionava que o árbitro deve julgar a acção…e não a intenção dos jogadores. Sancionar o que vê…e não o que pensa que viu! Antecipar a jogada…e não a decisão! O segredo de um bom árbitro…reside na sua capacidade de aplicar uma arbitragem preventiva…mais do que punitiva!

O Regulamento da Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol aborda os direitos e deveres específicos dos árbitros que devem zelar pela boa aplicação das leis do jogo bem como não emitir declarações ou opiniões públicas, em qualquer local e sem autorização prévia, sobre matérias de natureza técnica ou disciplinar relativas ao sistema específico da arbitragem e a qualquer jogo.

As polémicas à volta dos árbitros que se assiste nos dias de hoje, bem como as tentativas de condicionamento, de treinadores e dirigentes teriam razão de existirem se agissem de forma honesta e honrada enquanto competidores leais com o cumprimento dos regulamentos?

Porque será que quando os árbitros entram no terreno de jogo são imediatamente assobiados? Por que motivo na falta de eficácia das equipas na marcação de golos, os árbitros é que são os “culpados”?

João Marreiros é Professor Auxiliar no Ensino Universitário

Fonte: A Bola

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